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Especial Ciência e Universo · 06/11/2026

3I/ATLAS: o mensageiro de até 12 bilhões de anos que pode revelar segredos do Universo

Estudos publicados em junho e outubro de 2026 identificaram sinais químicos extraordinários no cometa interestelar. A hipótese é impressionante: parte de seu gelo pode ter se formado bilhões de anos antes do nascimento da Terra.

Cometa interestelar 3I/ATLAS na imagem capturada pelo telescópio espacial Hubble em julho de 2025
Imagem real do cometa 3I/ATLAS, registrada pelo Hubble em 21 de julho de 2025. Crédito: NASA, ESA, David Jewitt (UCLA); processamento: Joseph DePasquale (STScI). Fonte: ESA/Hubble, via Wikimedia Commons.

Imagine uma pequena montanha de gelo e poeira cruzando o espaço entre as estrelas e chegando à vizinhança do nosso Sol. Agora imagine que, escondidas em suas moléculas, existam pistas sobre uma época em que nosso planeta, o Sol e talvez até a estrela que lhe deu origem ainda não existiam.

Essa é a possibilidade que fez do 3I/ATLAS um dos objetos mais intrigantes da astronomia. Descoberto em 1º de julho de 2025, ele é o terceiro visitante interestelar confirmado a atravessar nosso Sistema Solar. Dois trabalhos científicos publicados em 2026 revelaram que sua composição é muito diferente da observada em cometas nascidos por aqui.

O ponto principal: a idade de 12 bilhões de anos é uma estimativa científica possível, obtida a partir da composição química e de modelos de evolução da galáxia. Não significa que pesquisadores tenham comprovado a data exata em que o cometa nasceu.

Junho de 2026: a primeira grande pista estava na água

Em 22 de junho, pesquisadores liderados por Martin Cordiner publicaram na revista Nature uma análise dos gases do 3I/ATLAS, com observações do telescópio espacial James Webb e do observatório ALMA. A grande surpresa apareceu no deutério.

Para entender, basta pensar que os átomos de hidrogênio podem ter versões diferentes, chamadas isótopos. O deutério é um hidrogênio mais pesado, pois possui um nêutron além do próton. Ele pode substituir o hidrogênio comum em moléculas de água. O percentual em que isso acontece conta um pouco da história do gelo.

Na água do 3I/ATLAS, os cientistas mediram uma proporção de deutério para hidrogênio de 0,98%, com incerteza de 0,06 ponto percentual — um valor mais de dez vezes superior ao de cometas conhecidos. Isso é compatível com a formação de gelo em ambientes extremamente frios, de aproximadamente 30 kelvin ou menos, isto é, cerca de −243 °C.

0,98%Proporção de deutério/hidrogênio medida na água do cometa.
≤ −243 °CTemperatura de formação do gelo sugerida pelos modelos; não é a temperatura atual do cometa.
até 12 bilhõesIdade possível em anos, ainda dependente de modelos astronômicos.

O carbono revelou uma história ainda mais antiga

Outro resultado de junho envolveu as proporções de carbono-12 e carbono-13. Enquanto diversos materiais do nosso Sistema Solar apresentam valores próximos de 89,4 para essa relação, as proporções medidas no dióxido de carbono e no monóxido de carbono do 3I/ATLAS foram muito mais elevadas.

Esses isótopos funcionam como sinais da história química de uma região da galáxia. Durante bilhões de anos, estrelas transformaram elementos e enriqueceram o gás interestelar. Os pesquisadores compararam as medidas com modelos dessa evolução e concluíram que o objeto pode ter se formado há cerca de 11 a 12 bilhões de anos em um ambiente relativamente pobre em elementos pesados.

Porém, não é uma data fechada. A própria equipe ressalta que existem incertezas nos modelos sobre a formação de estrelas, a produção de elementos e o movimento do gás galáctico.

Outubro de 2026: o metano confirmou que o frio deixou marcas

Em 23 de outubro, um segundo trabalho, liderado por Nathan Roth e publicado na revista Nature Astronomy, analisou o metano liberado pelo visitante. A pesquisa encontrou proporção de deutério/hidrogênio de 3,18%, com incerteza de 0,30 ponto percentual.

É aproximadamente 13 vezes o valor medido no metano do cometa 67P, estudado pela missão Rosetta. O metano muito enriquecido em deutério é compatível com reações químicas ocorridas num ambiente interestelar ou protoestelar extremamente frio, possivelmente sob intensa radiação cósmica.

Há uma diferença essencial entre os dois trabalhos: o artigo de outubro não calculou uma nova idade de 12 bilhões de anos. Ele trouxe outra evidência química compatível com a hipótese de formação em condições muito frias. As equipes são distintas, mas possuem pesquisadores em comum.

Uma cápsula do tempo antes de existir a Terra

O Universo tem cerca de 13,8 bilhões de anos. O Sistema Solar surgiu há aproximadamente 4,6 bilhões de anos. Se a hipótese mais antiga estiver correta, o material do 3I/ATLAS pode ter se formado quando o Universo ainda era jovem — muito antes do nosso Sol acender.

Isso não quer dizer que ele tenha permanecido totalmente intacto durante todo esse tempo. Raios cósmicos, choques, mudanças de temperatura e aproximações de estrelas podem alterar sua superfície e seus gases. A pergunta científica é: quanto da assinatura química original resistiu à viagem?

Ele não viaja para trás no tempo. Mas pode trazer até nós informações preservadas de um passado quase inimaginável.

Por onde passou? Já esteve aqui? Poderia ser uma nave?

Sua estrela de origem continua desconhecida. Acompanhar o caminho de um corpo por bilhões de anos é extremamente difícil, porque os encontros gravitacionais alteram a trajetória ao longo do tempo. Também não há evidências de que o 3I/ATLAS tenha passado anteriormente pelo Sistema Solar: sua órbita hiperbólica aponta para uma visita passageira.

Teorias de que ele seria uma nave extraterrestre ganharam repercussão, mas não há evidências científicas verificadas de tecnologia artificial. A atividade de gás e poeira, sua trajetória e os resultados de espectroscopia são compatíveis com um cometa natural vindo de outro sistema estelar.

Ele também não representa perigo para a Terra. Sua menor distância de nosso planeta foi da ordem de 270 milhões de quilômetros.

Por que a descoberta importa tanto?

O 3I/ATLAS permite algo raro: estudar material que se formou fora do Sistema Solar sem enviar uma nave até outra estrela. Ao medir os isótopos da água, do carbono e do metano, os cientistas investigam como eram os ambientes de formação planetária em outros tempos e lugares da Via Láctea.

Esse tipo de pesquisa é chamado de arqueologia galáctica: procurar sinais do passado do cosmos nos vestígios que ainda existem hoje.

Talvez nunca saibamos exatamente de onde o 3I/ATLAS saiu. Mas as informações recolhidas pelo James Webb, pelo ALMA e por outros instrumentos continuarão sendo analisadas muito depois de o visitante desaparecer na escuridão.

O cometa segue viagem. A história que suas moléculas contam ficará conosco.

Fontes e estudos originais

Esta reportagem utiliza estudos científicos revisados por pares e informações oficiais de agências espaciais. Resultados e hipóteses foram separados para facilitar a compreensão.

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Editorial JV News — Jovipetrans. A idade estimada, os modelos químicos e a origem exata são questões científicas em investigação. Publicado em 6 de novembro de 2026.

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