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ESPECIAL DE DOMINGO • TRANSPORTE E SOCIEDADE

Quem carrega o Brasil não pode carregar sozinho o peso de uma greve

Rumores de paralisação reacendem uma discussão antiga: o reconhecimento ao caminhoneiro precisa continuar quando a situação fica difícil.

1º de novembro de 2026 · Por João Victor Pereira · JV News

Ilustração de caminhoneiro com barba por fazer e camiseta de apoio à greve geral, junto ao caminhão e à bandeira do Brasil
Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para este editorial. Não registra adesão de uma pessoa real nem anuncia greve confirmada.

Uma possível paralisação dos caminhoneiros em 5 de novembro voltou a circular nas redes sociais. Até a apuração desta edição, porém, não há confirmação independente de uma greve nacional para essa data.

Em declaração publicada pelo ND Mais em 31 de outubro, Wallace Landim, conhecido como Chorão, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), negou a convocação. Segundo ele, informações de uma mobilização anterior voltaram a circular.

A negativa de uma entidade não permite antecipar todas as iniciativas locais. Mas mensagens compartilhadas, por si só, também não comprovam uma paralisação nacional.

Para quem vive do transporte, essa diferença importa. Uma decisão baseada em informação equivocada pode comprometer viagens, entregas e a renda de uma família.

UMA HISTÓRIA QUE NÃO COMEÇOU EM 2018

A mobilização de maio de 2018 marcou o país, mas os caminhoneiros já haviam protagonizado outras paralisações.

Em julho de 1999 e maio de 2000, movimentos colocaram em discussão os custos e as condições do transporte. Em julho de 2012, a categoria se mobilizou em torno das regras de jornada e descanso e das condições para cumpri-las. Em julho de 2013, houve nova paralisação.

Em 2015, ocorreram diferentes ondas de protestos: em fevereiro e março, em abril e novamente em novembro. Diesel, frete e condições profissionais estiveram entre as questões discutidas.

Entre 21 e 31 de maio de 2018, a paralisação nacional provocou fortes impactos no abastecimento. Já a convocação de novembro de 2021 não alcançou a adesão anunciada.

São episódios diferentes. Eles mostram que a força de uma mobilização depende de organização, participação e capacidade de sustentar suas reivindicações.

EDITORIAL — A PALAVRA DE QUEM VIVEU A ESTRADA

Por João Victor Pereira, ex-caminhoneiro e fundador da Jovipetrans

Eu fui caminhoneiro por muitos anos. E vou falar sem rodeio: não acredito em outra greve sustentada só pelos caminhoneiros. Não acredito que basta alguém publicar “o Brasil vai parar” para a categoria inteira parar e conseguir levar aquilo adiante.

Agora, numa greve geral de verdade, com outros setores assumindo sua parte, eu aposto que muitos caminhoneiros estariam entre os primeiros da fila para aderir.

O que eu não vejo mais é condição de deixar tudo nas nossas costas.

Porque, no começo, é bonito. Ganha marmita, ganha apoio, ganha elogio. O caminhoneiro vira o herói do Brasil.

Só que depois de quatro dias, na minha maneira de dizer, “o herói morre”.

Não estou falando de morte física. Estou falando daquele reconhecimento que desaparece quando a dificuldade chega à porta dos outros.

A entrega atrasa, falta um produto, a rotina aperta. Aí o trabalhador que era herói começa a ser tratado como culpado. O caminhão passa a incomodar. Sobram ofensas, desprezo e uma humilhação desnecessária, gratuita — uma humilhação “0800”.

E a conta continua chegando para ele.

A prestação não para. A família precisa comer. Os dias sem receber não voltam. Quando o apoio acaba, quem segura essa situação?

É por isso que eu não aceito esse discurso fácil de esperar que o caminhoneiro resolva tudo novamente.

Quem fala em greve geral precisa mostrar participação geral. Precisa assumir responsabilidade, apresentar reivindicações claras e sustentar o compromisso quando a situação ficar difícil.

Eu defendo uma mobilização pacífica e respeito à decisão de cada trabalhador. Ninguém deve ser coagido a parar nem humilhado por continuar trabalhando.

Sou patriota. Defendo a liberdade e o respeito por quem produz. E, justamente por isso, digo: o trabalhador da estrada merece mais que aplausos nos primeiros dias.

Se a causa é de todos, a responsabilidade também precisa ser. O caminhoneiro não pode continuar sendo herói na fotografia e culpado na hora da conta.

João Victor Pereira
JV News | Jovipetrans
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Reportagem e editorial são apresentados separadamente. Esta edição não anuncia greve confirmada nem representa decisão das entidades dos caminhoneiros.

Fontes e documentos

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